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A experiência de quem não tem experiência

Aluno Ciências Atuariais – FEA USP

Empreender está na moda. Isso não é uma suposição, é um fato. Um estudo realizado pela Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostra que, no ano de 2019, o Brasil superou 52 milhões de pessoas que possuem o próprio negócio. O número, talvez, seja consequência das características e benefícios que um empreendedor possui: Não ter chefe, ser dono do próprio negócio, horário flexível, e, quem sabe, ser um case de sucesso e atingir a tão sonhada independência financeira. Entretanto, o caminho até a posição esperada é muitas vezes árduo e penoso, e essa trajetória intensifica-se ainda mais quando o empreendedor possuí pouca, ou nenhuma experiência. E é exatamente isso que esse texto irá tratar: Qual é a experiência de um empreendedor que não tem experiência?

Minha primeira vivência com o empreendedorismo foi por volta do ano de 2017, eu tinha 17 anos. Meu tio, residente de Angra dos Reis – RJ, possuía uma oficina náutica e também era revendedor autorizado de uma marca que fabricava produtos para o ramo náutico e fitness (relógios, pulseiras, monitores cardíacos, etc). Reparei que, por conta de o trabalho do meu tio ser 100% voltado ao ramo náutico, todas vendas que ele fazia era somente de produtos desse segmento, foi aí que surgiu a ideia: Por que não tentar vender os produtos da linha fitness? A ideia, não só parece, como era muito óbvia, mas eu ainda tinha um enorme empecilho pela frente: Os relógios dessa marca eram extremamente caros, o mais barato, na época custava em média R$1.500,00 e é claro que eu não tinha esse dinheiro.

Depois de pensar e pesquisar muito, fazer inúmeras comparações de preço, estudo de mercado, eu passei por um “momento eureka”, uma luzinha piscou na minha cabeça e eu pensei comigo mesmo “Por que não tentar vender mesmo sem ter o produto?”. Foi aí que surgiu a “Tadashi Store”. A ideia era inocente, meu objetivo era somente ver a aderência que o produto teria caso eu anunciasse por um preço bem mais alto do que eu conseguia comprar. Hoje, com a pouca experiência que tenho, percebo que nesse momento descrito eu estava lançando meu primeiro MVP (Minimum Viable Product ou Produto Mínimo Viável).

O Resultado desse lançamento? Inúmeras pessoas interessadas no produto pois mesmo colocando uma grande margem de lucro, o preço final de venda ainda conseguia ser mais barato do que os encontrados nas lojas tradicionais. Entretanto, eu ainda tinha um “pequeno” problema, como iria comprar o produto para revender se eu não tinha o dinheiro? Acredito que a resposta para essa pergunta foi o grande diferencial para o meu primeiro negócio dar certo: Eu não iria comprar o produto sem antes vende-lo. O que eu comecei a fazer tinha uma lógica simples, mas o cronograma do processo todo era extremamente calculado. Eu vendia o produto já com a margem de lucro e, quando eu tinha o dinheiro da venda em minhas em mãos, eu fazia a compra do mesmo produto que havia vendido, mas por um preço muito mais baixo. É claro que eu sempre conversava com o cliente e explicava que o prazo de entrega seria maior pois eu precisava receber o dinheiro dele, fazer a compra do produto, receber na minha casa e depois redirecionar para ele.

Enfim, toquei o negócio por alguns anos, fiz muitas vendas, inúmeros clientes e negociações, muitas conversas e aprendizagens práticas. Ah, e claro, um ótimo dinheiro para um garoto de 17 anos que morava com os pais e tinha apenas a obrigação de estudar. Infelizmente o negócio não foi tão sustentável. A empresa que fabricava os produtos que eu vendia, alterou o modelo de negócio e parou de utilizar revendedores autorizados (como era meu tio), inviabilizando o negócio. Anos depois, já na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA – USP), descobri que esse modelo de negócio, que na minha cabeça, eu supostamente havia inventado, já existia, e era chamado de dropshipping.

Figura ‑ 1 Logo da loja com a antiga rede social usada
Figura ‑2 Fotos que costumava fazer das entregas para gerar credibilidade ao negócio e passar confiança aos próximos clientes.
Figura ‑3 Carta de agradecimento que acompanhava todos os pedidos.

Agora que já contei para vocês, de maneira bem resumida e rápida, a minha primeira experiência no mundo do empreendedorismo, acredito que posso elencar os principais problemas que enfrentei e tentar descrever, as sensações que eu tinha, e os pensamentos que surgiam. Começando pelas sensações, acredito que a primeira e a mais latente que todo empreendedor possuí, seja ele experiente ou não, é a ansiedade. A vontade, o desejo e o anseio de tirar logo aquele projeto do papel sem dúvida foi contagiante nos meus primeiros passos. Dormia e acordava todos os dias pensando quando e como eu colocaria tudo isso em prática. Era, e ainda é de certa forma com meus novos projetos, angustiante, o longo, mas extremamente valioso período de planejamento e de papelada. Essa talvez seja uma grande dica que não faça parte do senso comum: Aproveita esse tempo de planejamento ao máximo. Faça tudo o que for preciso para que, na teoria, o projeto seja perfeito ou próximo a isso. Estude o nicho que você deseja empreender, estude os concorrentes, faça análise do mercado, e sempre, SEMPRE faça contas, a viabilidade financeira do negócio é sem dúvidas o item mais importante.

Partindo para as dificuldades, vou citar duas que talvez seja de praxe de qualquer empreendedor iniciante:

Controle Financeiro: Fazer a administração do negócio é, sem dúvidas, uma das tarefas mais importantes e complicadas. Para exemplificar e trazer o debate mais para realidade vou dar um exemplo prático que estou vivenciando:  Em um negócio recente que estou trabalhando, eu, junto com mais um sócio, estamos há mais de duas semanas decidindo como vamos fazer o controle financeiro desse novo projeto. Iremos usar ERP (Enterprise Resource Planning ou Sistema integrado de gestão empresarial)? Não vamos? Se vamos utilizar, qual o melhor sistema para o nosso ramo? Essa e inúmeras outras perguntas surgem para um empreendedor que não tem experiência.

Contabilidade e Tributação: Não é novidade para ninguém que todos os dias empreendedores e empresários brasileiros estão “Carregando o Elefante”. A burocracia existente para seguir todas as regras da tributação brasileira é um enorme desafio para qualquer um. A grande carga tributária e os incontáveis assuntos relacionados a contabilidade, foi e ainda é uma dificuldade para mim e para qualquer outro empreendedor. Portanto, a dica relacionada a essa segunda barreira é: Procure um contador ou um escritório de contabilidade especializado na sua área. Claro que existem algumas regras que são padrões para todos os ramos, entretanto, existem muitas especificidades de leis e aspectos contábeis para alguns nichos, como o caso do ramo alimentício.

Por fim, mas talvez a mais importante, a dificuldade que eu ouso dizer ser enfrentada por todos empreendedores no Brasil e no mundo é a capacidade de aprender. O universo do empreendedorismo exige um profissional versátil, multidisciplinar e acima de tudo autodidata. A expressão “saber um pouco de tudo” faz muito sentido nesse contexto. O empreendedor precisa descobrir o que ele gosta de fazer e o que ele faz bem.  Se a junção desses dois pontos for bem feita, as chances de um grande negócio de sucesso nascer, são altas.

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